sábado, 1 de setembro de 2012

El Mariachi, de Robert Rodriguez


O final da década de 80 e início de 90, foi um período de transformações na indústria do cinema estadunidense, James Cameron em "O segredo do Abismo" (1989) e "O exterminador do Futuro II" (1991) revolucionou os efeitos especiais com o uso da computação gráfica e inaugurou a era das produções milionárias (O exterminador do futuro II foi o primeiro filme da história a ultrapassar a barreira dos 100 milhões de dólares), Tim Burton e o seu "Batman" (1989) também inaugurou a era dos supersalários, com Jack Nicholson faturando 50 milhões de dólares entre salário e participação na bilheteria.

O que um aspirante a diretor de cinema, com 7 mil dólares no bolso poderia fazer no início da era das produções milionárias e dos supersalários? O dinheiro daria para comprar uma passagem para Hollywood e tentar a sorte na "capital mundial do cinema", mas Robert Rodriguez teve outra ideia, e resolveu fazer um filme com o dinheiro que dispunha. Essa ousadia apresentou ao mundo um dos melhores diretores da nova geração e, por incrível que pareça, um ótimo filme chamado "El Mariachi" (1993).

O filme se passa em uma cidade do interior do México onde um Marichi (típico músico mexicano) chega para procurar emprego. O músico traz o violão em uma caixa específica para guardar o instrumento, e é aí que os seus problemas começam. Um traficante violento que acaba de sair da prisão com o objetivo de matar o seu rival, um chefão das drogas, usa uma caixa idêntica, a diferença é que dentro ele não carrega um violão, e sim uma arma. O mariachi acaba confundido com o bandido e passa a ser perseguido. Para completar a maré de azar, ele ainda se envolve com a namorada do chefão despertando a ira do criminoso. O que se vê daí pra frente são sequência de tiroteios, perseguições e mortes.

O jeito Robert Rodriguez de fazer cinema

Para rodar "El Marichi" com 7 mil dólares (que devem ter sido gastos em grande parte só em película), Rodriguez chamou amigos e moradores locais para "atuarem" no filme. A produção inexiste. Roupas, sapatos, carros, etc. são de uso pessoal dos atores, que aliás, dão um show à parte com uma canastrice em estado bruto: olhos esbugalhados, caretas, movimentos bruscos, enfim, amadorismo total.

Então, como é que um filme com um roteiro como esse, atores péssimos e um orçamento lastimável conseguiu se destacar e revelar Robert Rodriguez à concorrida indústria cinematográfica estadunidense? É aí que entra a genialidade de Rodriguez: Ele transformou todas as limitações envolvidas na produção em aliadas. Se "El Mariachi" tivesse a pretensão de ser um filme de ação sério, como tantos outros que são feitos com atores ruins e baixo orçamento, teria sido um fiasco. Mas não é o caso.

A fórmula que Rodriguez criou para anular essas limitações, transformou-se em uma espécie de assinatura do diretor. Seus filmes possuem uma estética bem particular e elementos inconfundíveis: situações inverossímeis, violência tosca, bandidos e "mocinhos" caricatos, tiroteios em lugares inusitados, locações em cidades mexicanas(de preferência com muita areia), cenas que lembram os antigos filmes de western, mulheres sensuais e armadas até os dentes. No geral, o exagero dá o tom dos filmes de Robert Rodriguez e a ação é apenas uma atração secundária.

"El Mariachi" é um daqueles poucos filmes que possuem uma "aura" de originalidade, uma deliciosa subversão ao paradigma cinematográfico da época, um contra-senso às produções milionárias e super salários da indústria estadunidense de cinema.

Particularmente, nunca me canso de assistir "El Mariachi".

Veja o trailler

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